É comum ouvir, e já caiu no dito popular, que todo político é corrupto, que político algum presta. Na maioria das vezes, isso é verdade, a mídia nos mostra isso. Mas o problema na política não é bem de quem está no poder, é de quem o coloca lá. Político que rouba, que frauda, que desvia, que emprega familiares, que isso e que aquilo, já é comum a nós. Estamos tão acostumados a isso que é impossível nomear tanta sujeira que surge no meio daqueles que nos governam – isso quando a sujeira é mostrada –. Fatos chocantes podem ser facilmente esquecidos por nós, em pouco tempo. O maior problema não é o político corrupto, mas as pessoas corruptas. Acima de tudo, ainda há a sensação de que, ao vender o próprio voto, não se está errado, que o errado é quem compra, não quem vende, visto que, é pobre, ou desempregado ou precisa de algum benefício para sair do sufoco – mal sabendo que o sufoco é conseqüência da própria consciência e que nesse comércio não há saída, ou seja, o sufoco é vitalício –. Não se fala de quem vende, mesmo porque o negócio é fechado às escuras e, por esse motivo, é difícil identificar o vendedor. Todos os créditos da negociação ficam com quem compra, o candidato, e o eleitor, não menos corrupto, fica no anonimato.
É comum a compra de votos nas eleições, motivo pelo qual há tantas campanhas combatendo esse crime. O que está se tornando comum, infelizmente, é que muitas pessoas se lançam à venda, já que nas eleições elas também concorrem, não pleiteando um cargo político, mas à conquista do maior preço, ou, simplesmente, ao dinheiro.
Na verdade, estamos cercados de políticos, inclusive em nossas casas, escolas, igrejas, ciclos de amizades e assim por diante. Nós somos políticos. Praticamos política todos os dias de nossas vidas, ao seguirmos as regras da sociedade em que vivemos, de uma forma organizada, convivendo e respeitando o direito do próximo, fazendo valer os nossos direitos e cumprindo os nossos deveres, interagindo e compartilhando conhecimentos com os outros, orientando, ajudando ou sendo ajudado por alguém. Tudo isso e muito mais são componentes da política e, no menor contato com as pessoas, estamos praticando política, pois temos a necessidade de nos comunicar, de transmitir nossos interesses e querermos que as nossas intenções sejam aceitas, obedecendo sempre a regras sociais, para que esse contato tenha o resultado esperado.
É triste saber que as pessoas viram mercadorias, no período eleitoral. Antes, elas esperavam o candidato A, B ou C lhe oferecer uma certa quantia em dinheiro ou algum benefício, o que não é certo. Hoje a coisa está tão feia, que as próprias pessoas se oferecem por alguns tostões. Há quem se iluda, ainda, com promessas de emprego garantido após as Eleições. Ora, o desemprego no país já é grande – umas cidades com mais, outras com menos, mas sempre há um número considerável de desempregados – e para que um candidato seja eleito, ao menor cargo a que ele concorra, é necessário um número bem elevado de votos. Portanto, se a todo eleitor ele prometer emprego ele terá, consequentemente, uma enorme demanda de empregos a oferecer. Posto isso, temos uma promessa impossível, senão, não haveria desempregados no país. Essa prática é bem comum em eleições municipais.
Triste mesmo é saber que a população é rotulada, que ela tem uma cotação pré-definida, pois cada comunidade ou grupo de pessoas organizadas socialmente têm um valor. É comum, numa localidade, haver uma liderança, uma pessoa que, de certa forma, tome as rédeas daquele lugar, que lidere e busque solucionar os problemas. E é comum, também, chegarmos a uma localidade conhecendo o seu líder e já sabendo o seu preço. Muitas vezes, as pessoas são comercializadas mesmo sem saber. O líder, ou aquele que detém alguma dominação sobre um grupo, manipula a opinião dos seus membros e os fazem votar em quem ele ordenar. Esse líder recebe um valor monetário, de acordo com o tamanho de seu grupo. Alguns membros desse grupo recebem uma pequeníssima parte dessa negociação e outros, ingenuamente, sequer saberão que foram vendidos, iludidos com a falsa idéia que seu líder os fez terem e com as boas palavras e carisma daquele candidato – isso, se ele aparecer–.
Há, ainda, aqueles que não pertencem a grupo algum, mas que também se colocam à venda. Esses se proclamam espertos, vangloriando-se com alguns trocados recebidos por mais de um candidato. Há, ligeiramente, uma competição para saber quem ganhou mais e de quantos candidatos ele arrecadou dinheiro. Pois bem, esses “espertos”, não têm menos culpa do que os outros eleitores que se corrompem, porque eles brincam com coisa séria e ainda põem, em risco, o destino de uma população, onde o que deveria ser voto consciente se torna voto sem critério, o que deixa margem aos maus políticos assumirem o poder.
Joaquim Paiva
Aquiraz, 25 de setembro de 2009 (00h11min)